Oriximiná, município do Baixo Amazonas, jamais esqueceu a tarde de 23 de setembro de 1985. Era por volta das 15h30 quando um violento vendaval atingiu a cidade e, em questão de minutos, transformou rotina em tragédia. Rajadas de até 60 km/h derrubaram casas, destelharam imóveis e provocaram a queda da torre metálica de 130 metros da Telepará, instalada em 1979 como símbolo de modernidade e integração ao sistema de telecomunicações do Pará.
“Eu estive no Banco do Brasil naquela tarde, quando a torre caiu. Eu vim embora, dobrei a esquina e me lembro muito bem que quando saí do banco a chuva começou. Uma das últimas pessoas com quem conversei foi o Dimas, que faleceu. Na hora em que peguei a travessa que passa em frente ao banco e dobrei na Sete de Setembro, chegando na UFF, ouvi um barulho e a luz apagou. De repente, vi as pessoas correndo e gritando: ‘Caiu a torre!’. Eu não acreditei, porque tinha acabado de sair da agência. Foi questão de minutos. Não estava acreditando naquilo. O fato é que, quando olhei para cima, vi que a torre envergou, ela virou e caiu. A ponta dela caiu no ‘Lameira’ [Escola de Primeiro Grau Lameira Bitencourt]. A queda da torre parou a cidade. Ficamos sem luz, a chuva continuou e ficamos incomunicáveis com o resto do mundo. Levou um bom tempo para a situação ser resolvida. Foi um horror, terrível. A cada pessoa que víamos sair dali com vida era uma vitória, mesmo em estado de choque, vendo tudo aquilo. Foi um momento muito triste, e as pessoas que ficaram com sequelas desse fato mostram que não foi fácil”, conta Professor João Felipe.

A estrutura não resistiu à força da ventania e desabou sobre a agência do Banco do Brasil, na esquina da rua Antônio Bentes com a avenida Barão do Rio Branco. O impacto destruiu o prédio e deixou três mortos: os funcionários do banco Gilberto Ribeiro Rodrigues e Dimas Lázaro da Silva Barbosa, além de Carlos Alberto da Costa Feijão, servidor do então Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF). Outras nove pessoas ficaram feridas, algumas em estado grave.

— “Eu sobrevivi ao acidente e fui tido por morto. O Dimas morreu na minha frente. Ainda sacudi o braço dele quando eu estava em baixo dos escombros”, relata Oli Prestes, ex-funcionário do Banco do Brasil.
O “milagre” da escola vazia
Próximo à agência ficava a Escola Lameira Bitencourt, com 600 crianças matriculadas no turno da tarde. A torre também atingiu parte do prédio. O que poderia ter sido a maior tragédia escolar do estado foi evitado por uma coincidência: a diretoria havia suspendido as aulas para que os alunos recebessem no aeroporto o então governador Jader Barbalho, o senador Hélio Gueiros e a comitiva oficial em visita à cidade. A decisão salvou centenas de vidas.
“Eu era aluno da Escola Lameira Bitencourt na época do desastre. A torre da Telepará caiu e atingiu justamente a sala de aula da qual eu fazia parte. Se não fosse a sensibilidade e a preocupação da diretoria da escola em liberar os alunos, acredito que cerca de 30 e poucos alunos, além do professor, teriam sido atingidos. Não sobrou nada da nossa sala de aula, ela ficou completamente destruída. As carteiras e a mesa do professor, tudo foi pulverizado. Curiosamente, outras partes da escola e do banco foram atingidas apenas parcialmente, mas a nossa sala foi destruída na íntegra. Lembro que a ponta da torre foi parar bem longe, no que a gente chamava de ‘curvão’ ou ‘buracão’. Infelizmente, um vigia faleceu e outro perdeu as pernas no incidente. Mas a gente sabe que a fatalidade teria sido ‘bem maior’ se a minha turma estivesse na sala de aula naquele momento“, disse Edivaldo Pontes.

“Eu estudava lá na época e até hoje nós, alunos, deveríamos ser chamados de milagre. A nossa diretora era muito severa, mas nesse dia ela liberou todos antes do tempo. Se não fosse por isso, hoje seríamos lembrados em um memorial. Hoje eu digo que ela deveria ser chamada de heroína, pois com um simples ato ela salvou muita gente, liberando todos bem mais cedo. Lembro que já tínhamos passado por vários temporais e nunca tínhamos sido liberados. Por isso, eu digo hoje: somos um verdadeiro milagre”, conta Caio Figueiredo
Cidade isolada
Com a queda da torre, Oriximiná ficou sem comunicação telefônica. As primeiras notícias chegaram a Belém por meio de radioamadores. Uma lancha vinda de Santarém levou médicos, enfermeiros, bombeiros e medicamentos. Os feridos mais graves foram transferidos de avião para a Clínica dos Acidentados, na capital. A mineradora Rio Norte também entrou em ação, prestando apoio logístico imediato.
“Quebrou as pernas, meu peito… Eu estava dentro de um carro, esperando o Doutor Alberto Guerreiro, que era o chefe. Ele nos chamou para o banco, e a torre caiu. Perto de mim estava uma pessoa que faleceu, que trabalhava na agência, e mais outros acidentados. Fui eu, Dr. Alberto e o Braz Sarubi. Depois, eu viajei para Belém. Gratidão pela vida, foi mesmo que nascer de novo”, comenta Nelson de Oliveira, sobrevivente da tragédia.
Socorro e investigação
O presidente da Telepará, João Malcher Dias Filho, soube do colapso enquanto estava em Sergipe, avisado pela Embratel. Técnicos liderados pelos diretores Josué Clarício e Odemar Novaes Coutinho viajaram a Oriximiná para avaliar os danos. Malcher declarou que a base da torre estava em perfeito estado de conservação e que a ventania havia retorcido a estrutura de ferro.

Foto: Arquivo IBGE Nacional – ORIXIMINÁ.
Naquela noite, em Belém, a diretoria da estatal se reuniu para organizar o restabelecimento dos serviços. Até então, toda a comunicação entre Oriximiná e as minas de Porto Trombetas, além das ligações de longa distância, estava paralisada.
Quarenta anos depois
Quatro décadas se passaram, mas o episódio permanece vivo na memória da população. Para muitos, a queda da torre da Telepará simbolizou tanto a fragilidade da infraestrutura amazônica quanto a solidariedade que brota em momentos de crise. Entre o luto pelos três mortos e a lembrança do “milagre” das crianças salvas, Oriximiná ainda relembra a tarde em que o progresso desabou junto com a tempestade. “Saudade dos amigos que se foram, saudade dos amigos com quem trabalhei… E Deus existe! Que cada situação aumente a nossa fé, porque não foi fácil ver tudo aquilo, nenhum momento foi fácil. Tenho amigos que estão vivos até hoje, que eram funcionários do banco, e que têm sequelas fortes: não dormem, têm pesadelos terríveis. Mas a fé em Deus aumenta todo esse sentimento em toda e qualquer situação, e que respeitemos o tempo d’Ele”, finaliza João Felipe emocionado.

Vítimas Fatais
Gilberto Rodrigues, Dimas Lázaro da Silva Barbosa e Carlos Alberto da Costa Feijão.
Os feridos
Três funcionários do Banco do Brasil, dois funcionários do IBDF ficaram gravemente feridos tiveram de ser transferidos para Belém e foram internados na Clínica dos Acidentados, no Largo de Nazaré. Os outros quatro feridos permaneceram em Oriximiná, para receberem atendimentos médicos no Hospital do SESP.
Com informações do Diário do Pará
Acervo original Digital da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro















































Comente este post